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Cientista do Brasil ‘demitido’ após desmatamento com presidente

Ricardo Galvão deixa o cargo depois que o direitista Jair Bolsonaro criticou dados mostrando o acelerado desmatamento da Amazônia.

O chefe do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) do Brasil deixou sua posição após uma disputa pública com o presidente Jair Bolsonaro sobre os dados da agência, que mostrou uma taxa acelerada de desmatamento na Amazônia. Depois de conhecer o ministro da Ciência e Tecnologia  do Brasil , Marcos Pontes,  na sexta-feira, Ricardo Galvão disse que partiria devido a uma situação “insustentável”. “Eu serei demitido”, disse Galvão aos repórteres ao sair da reunião.

Pontes confirmou a saída de Galvão no Twitter. Um porta-voz do ministério disse à agência de notícias Reuters que não está claro se Galvão foi demitido ou não. Galvão já havia acusado Bolsonaro de “covardia” por questionar publicamente os dados gerados por satélite, divulgados pelo Inpe, que mostraram que o desmatamento da floresta amazônica aumentou 88% em junho deste ano, em comparação com o mesmo mês do ano passado.

Os dados do INPE mostraram que 920 quilômetros quadrados de floresta amazônica foram destruídos em junho. Entre 1º de julho e 25 de julho, data mais recente disponível, o INPE registrou 1.864 quilômetros quadrados de desmatamento, número triplo registrado em todo o mês de julho do ano passado.

Bolsonaro, cujo mandato começou no início de 2019, depois que ele subiu ao poder em uma plataforma populista de direita, tem repetidamente expressado ceticismo sobre a taxa de desmatamento na Amazônia. Ele também sugeriu a abertura da maior floresta tropical do mundo para mineração, agricultura e construção de barragens.

No mês passado, Bolsonaro descreveu os números do INPE como uma mentira e disse que Galvão poderia estar trabalhando “a serviço de alguma ONG”. Galvão rejeitou os comentários de Bolsonaro em uma entrevista concedida em julho à emissora nacional Globo, descrevendo os comentários como “conversas barulhentas” e “uma piada de um garoto de 14 anos que não é adequado para um presidente do Brasil”.

Bolsonaro continuou suas críticas na quinta-feira, dizendo que suspeitava que as autoridades do INPE manipularam dados para manchar a imagem de sua administração. Ele ameaçou demitir aqueles que forneceram dados que ele considerou “duvidosos”.

“Um relatório como este que não corresponde à verdade pode causar um grande dano à imagem do Brasil”, disse Bolsonaro a repórteres. “Parece que tem gente interessada nisso, não a imprensa, porque os dados saíram do INPE, de nossos próprios departamentos”.

Ricardo Sales, o ministro do Meio Ambiente, questionou a metodologia das descobertas do INPE, descrevendo os números como sensacionalistas e imprecisos. O INPE, que usa a mesma metodologia para medir o desmatamento desde 2004, disse estar confiante sobre seus dados. A taxa acelerada de desmatamento causou preocupação crescente com o acordo de livre comércio pendente da União Europeia com o bloco sul-americano Mercosul, que inclui o Brasil.

Os agricultores europeus temem a concorrência do setor agrícola brasileiro, que eles argumentam estar sujeito a exigências ambientais menos rigorosas do que as da Europa. O ministro da fazenda da Itália e o parlamento da Irlanda em julho pediram que o acordo fosse bloqueado.

Suporte para Galvão

Membros da oposição, ex-funcionários do governo e grupos ambientalistas defenderam as descobertas da agência Galvão e do MIT. Alessandro Molon, líder da oposição na câmara baixa do Congresso, disse que a saída de Galvão indicava um presidente cada vez mais autoritário.

“Ele não aceita ser contradito, mesmo quando existem fatos científicos que provam que ele está errado, como no caso da agência espacial do INPE e dos dados do desmatamento da Amazônia”, disse ele à Reuters.

Marina Silva, ministra do Meio Ambiente do Brasil de 2003 a 2008, disse à agência de notícias Associated Press que Galvão foi “demitido por sua competência, confiança e por dirigir uma instituição que não se acovardou diante de … ameaças infundadas”.

O Fundo Mundial para a Natureza disse que apoiou Galvão e sua defesa da “divulgação apolítica e pública de dados de desmatamento”.

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